Franchising e o “mito do empreendedor”

É impressionante a taxa de mortalidade dos negócios independentes: ao cabo de dois anos, mais de metade fecha portas. Há qualquer coisa de pavoroso nisto de um pequeno empresário se atirar de cabeça para um negócio, investindo o dinheiro que tem e por vezes o que não tem, esfalfando-se dia e noite, para ao fim de alguns meses se ver forçado a embalar os haveres e pesquisar as páginas de emprego dos grandes semanários.Algum do sucesso do franchising deriva destas estatísticas aterradoras. Os negócios desenvolvidos sob a fórmula de franquia resistem mais, porque os franchisados beneficiam de um conceito testado e até de uma marca já consagrada, com formação inicial, manuais de procedimentos e apoio permanente, entre outras vantagens concedidas pelas redes.

Ora, uma das razões que explicam o fracasso de alguns pequenos negócios é o “mito do empreendedor”, explanado por Michael E. Gerber em várias obras suas, infelizmente ainda pouco estudadas entre nós. Ensina Gerber que o perfil recorrente de quem abre um negócio é menos o de um empreendedor do que o de um técnico. Isso mesmo, um técnico. Como o António percebe de computadores, faz-se à vida com um negócio de informática; como a Maria cozinha lindamente, é convencida pelos amigos a abrir o seu próprio restaurante. Estes exemplos não vos soam familiares?

A maioria das pessoas assume que os conhecimentos técnicos numa área são suficientes para abrir ou gerir um negócio. Errado, diz Gerber. Essas pessoas vão passar o tempo a resolver problemas, embrenhadas no quotidiano da empresa, em vez de erguerem um negócio que trabalhe para elas. Trabalham “in the business“, quando deveriam fazê-lo “on the business“. É por isso que um mercado de franchising maduro como o dos Estados Unidos abunda em estudos que demonstram o nexo de causalidade entre a experiência prévia no sector e o fracasso. Quem exerce como mero “técnico” não consegue ter o distanciamento necessário para analisar o negócio de cima e acrescentar continuamente valor à empresa.

A este propósito, Gerber cita várias vezes o lançamento do franchising da McDonald´s por Ray Kroc. Verdadeiro empreendedor, Kroc começou a empresa como se fosse um engenheiro a trabalhar num protótipo destinado à produção em larga escala. O protótipo era o modelo de negócio e os vários sistemas que o fizessem funcionar. A principal tarefa do empreendedor é criar um negócio que tenha vida própria.

Se com rigor etimológico entendermos por empreendedor aquele que empreende, que cria uma empresa, que abre um negócio, então o franchisado é um empreendedor; mas se, numa acepção empresarial mais exigente, o considerarmos como aquele que pensa a empresa, inventa negócios ou mercados e propende para a inovação contínua, a maior parte dos franchisados não o é. Os empreendedores criam negócios de raiz, não os compram já embalados. A paixão de um verdadeiro empreendedor é fazer crescer o negócio à sua imagem – e não pelo figurino que o franchisador impõe à rede.

As razões que justificam o êxito do franchising são paradoxalmente as que explicam que o modelo não serve para verdadeiros empreendedores. Quando uma rede vende um franchising a um verdadeiro empreendedor, das três uma: ou este aceita disciplinadamente as regras da marca, o que é raro, não escondendo todavia o tédio profissional; ou vive em conflito permanente com o franchisador; ou acaba mesmo por ir à vida, criando a sua própria rede ou marca, com o know how entretanto granjeado. Preciso de dar exemplos?

No universo do franchising há decerto vários empreendedores no campo dos franchisadores. Poucos, porém, no campo dos franchisados. E ainda bem para as redes! O perfil de um franchisado, para além das características próprias que variam de marca para marca ou de sector para sector, é geralmente o de alguém que, apesar da vontade ou necessidade de abrir um negócio e até da propensão para o risco, precisa da protecção de uma marca de comprovado sucesso. É muitas vezes alguém que procura apoio diário e orientação permanente. Costumo dizer, um tanto por blague, que representa a figura juridicamente inexistente de um “empresário por conta de outrem”.

Estou convencido de que as redes de franchising, em vez de vogarem no mar encapelado do “mito do empreendedor”, colheriam mais vantagens se encarassem os seus franchisados tal como eles são: pequenos investidores que criam o próprio emprego, e em certos casos o de mais uma ou duas pessoas, mas que precisam de formação e assistência permanentes nos domínios da gestão financeira, recursos humanos, marketing, gestão comercial e vendas.


Autor: Bruno Santos, Director-Geral da TREMA